O
recém-empossado diretor do Instituto Butantan, o hematologista e professor da
USP de Ribeirão Preto Dimas Tadeu Covas, redigiu, a pedido de uma auditoria
encomendada pela Secretaria da Saúde, um relatório sobre a produção de
hemoderivados do Butantan. No texto, defendia a produção de um fármaco do qual
possui a patente.
A
divulgação dos resultados do relatório desencadeou a crise institucional do
Butantan, que incluiu a queda do ex-diretor Jorge Kalil.
A fábrica
de hemoderivados já recebeu investimentos de mais de R$ 200 milhões, mas,
nove anos após, ainda está sem previsão de funcionar –por problemas tanto na
parceria com empresas estrangeiras quanto por falta de matéria-prima (plasma,
proveniente de sangue doado e usado para fabricar o fármaco fator 8, para
hemofilia).
Segundo
o documento, mesmo que a processamento brasileiro de plasma estivesse
funcionando a todo vapor (teoricamente 650 mil litros de plasma ao ano), a
quantidade de fator 8 ainda estaria aquém do necessário.
No
relatório, a solução defendida por Covas é a produção de fator 8 recombinante
–ou seja, sem a necessidade de sangue. A proposta, porém, é mal vista por
alguns pesquisadores do Butantan, porque investir nessa alternativa poderia
agravar ainda mais a situação da fábrica de hemoderivados do instituto,
tornando-a obsoleta e deixando passar a oportunidade de gerar inovação.
O
relatório da auditoria de 2015, da empresa Colorado Consultoria Empresarial
Ltda., afirma que os fatores recombinantes “vão substituir integralmente os
fatores derivados de plasma nos próximos anos” e que “várias patentes
desenvolvidas pela USP poderiam colocar o país na vanguarda mundial no setor”.
No
mesmo ano, Covas e outros três colegas obtiveram o registro de uma patente (US
8969041 B2) para a produção de fator 8 recombinante a partir de cultura de
células humanas. A patente é de propriedade da USP e da Fundação Hemocentro de
Ribeirão Preto, que foi dirigida por Covas.
No
relatório, consta que a “possibilidade [de produzir fatores recombinantes] foi
oferecida ao [ex] diretor do Butantan, prof. [Jorge] Kalil, sem que, no
entanto, nada de concreto fosse desenvolvido.”
Continua:
“A questão dos fatores recombinantes tem que ser incluída no planejamento de
qualquer planta [industrial] que pretenda atuar na área de hemoderivados. No
anexo 2 apresentamos um documento que trata do assunto”. O anexo 2 é assinado
por Covas.
O
Butantan, em nota, afirma que a planta da fábrica foi inicialmente pensada para
o fracionamento de plasma. “Estamos buscando saídas que viabilizem
economicamente a unidade, trazendo benefícios diretos para a instituição e para
todo o Estado de São Paulo.”
Para
a Secretaria da Saúde, não há base para supor que Covas sairia beneficiado por
causa da patente, já que “o Instituto Butantan não produzirá fator 8
recombinante e nenhum outro”.
É o
oposto do que recomenda a auditoria, que foi contratada em regime de urgência
pela Secretaria da Saúde, ao custo de R$ 500 mil.
CRISE
Antes
de Covas, o diretor do Butantan era o imunologista e professor da USP Jorge
Kalil, que, entre 2012 e 2015, acumulou o cargo com o de presidente da Fundação
Butantan, que cuida das finanças do instituto.
Segundo
a Secretaria da Saúde, a auditoria da Colorado foi responsável por findar a era
de “duplo comando” de Kalil, fazendo com que ele deixasse a presidência da
fundação e indicasse seu então amigo André Franco Montoro Filho, administrador
e professor da USP para o posto.
Montoro
Filho disse à Folha que estava preocupado com a legalidade das atividades da
fundação, mas que não foi possível continuar o trabalho por causa das pressões
de Kalil, “que era péssimo gestor”, e da diretoria da fundação para assinar
parcerias e convênios sem poder opinar.
Ele saiu
da presidência no começo de fevereiro, mas não sem deixar uma carta expondo as
irregularidades apontadas pela auditoria. “Aquele foi meu testamento.”
O
fim da era Kalil, que desde 2011 comandava o Butantan, veio em 21 de fevereiro.
Mesmo com o apoio ao imunologista no meio acadêmico, a Secretaria de Saúde,
comandada por seu ex-amigo David Uip, resolveu exonerá-lo por causa de uma
tentativa de Kalil, segundo a secretaria, na prática, de voltar a tentar
comandar a Fundação com mudança de estatuto.
“Além
disso, a Secretaria tomou conhecimento que o professor Kalil encaminhou à Casa
Civil […] anteprojeto de lei que transformaria o Instituto Butantan em uma
autarquia especial completamente independente. Ou seja, flagrantemente dois
atos graves e inadmissíveis de insubordinação.”
Kalil
não foi encontrado para comentar o assunto.
PUNIÇÃO
Outro
punido foi o pesquisador Marcelo de Franco, que foi transferido para o pequeno
Instituto Pasteur, que tem pesquisas ligadas à raiva e doenças relacionadas. Franco
tem linha de pesquisa relacionada a artrite e inflamação.
“Ele
também assinou o documento do projeto de lei […] que pretendia transformar o
instituto em uma autarquia especial e independente. Sua transferência ao
Instituto Pasteur foi, portanto, uma decisão administrativa.”, afirma a
Secretaria da Saúde, em nota.
Segundo
Joaquim Adelino de Azevedo Filho, presidente da Associação dos Pesquisadores
Científicos do Estado de São Paulo, o caso de Franco é “anormal”. “Se ele fez
algo errado, tem de ser investigado. É errado colocar o pesquisador em local
onde ele não vai conseguir desenvolver suas atividades e funções adequadamente.
Além disso, a população também é prejudicada pelo baixo desempenho: ele está
deixando de produzir os benefícios para a sociedade como seria capaz.”
Entenda
a crise institucional do Butantan
1991
– 1997 O médico e professor de
bioquímica da USP Isaias Raw dirige o Instituto Butantan
1998 Isaias Raw começa a presidir a Fundação
Butantan, que apoia as atividades do instituto e que pode vender as vacinas e
outros produtos
2008 Início da construção de fábrica de
hemoderivados do Butantan; são gastos R$ 239 milhões
set.2009 Promotoria aponta desvio de mais de R$ 30
milhões na Fundação Butantan; tesoureiro é tido como suspeito
out.2009 Isaias Raw é afastado da direção da Fundação
Butantan para permitir que investigações sejam realizadas
2011 Jorge Kalil assume direção do Instituto,
apontado pelo secretário da Saúde à época, Giovanni Cerri
2012 Jorge Kalil assume a presidência da Fundação
Butantan, sem deixar o cargo de diretor do Instituto, ‘unificando’ o poder
2015 Após pressão do secretário da Saúde David
Uip, Kalil sai da Fundação; André Franco Montoro Filho é escolhido como novo
diretor
2015 Auditoria encomendada pelo governo Alckmin
aponta irregularidades no Butantan; no documento, Dimas Tadeu Covas, da USP de
Ribeirão Preto, redigi parecer crítico sobre fábrica de hemoderivados
8.fev.2017 André Franco Montoro Filho deixa presidência
da Fundação, alegando uma série de problemas encontrados pela auditoria, que
foi realizada pela empresa Colorado Consultoria Empresarial Ltda.
20.fev Reportagem da Folha mostra paralisia da
fábrica de hemoderivados; há falta de sangue, que pertence à União e que preferencialmente
é destinado à estatal Hemobrás
21.fev Governo Alckmin decide afastar Jorge Kalil da
direção do Instituto; pesquisadores e funcionários protestam
22.fev Dimas Tadeu Covas é escolhido por David Uip
para ser novo diretor do Instituto
23.fev Reportagem da Folha mostra que havia mágoa
antiga entre David Uip e Jorge Kalil; ambos dão entrevista ao jornal. Uip disse
que havia divergência no quesito gestão; Kalil disse que foi punido sem motivo
23.fev Promotoria denuncia 11 pessoas por furtos no
total R$ 33,5 milhões da Fundação Butantan realizados na gestão de Isaias Raw
17.mar Marcelo de Franco, pesquisador do Butantan e
braço direito de Kalil, é transferido pelo governo Alckmin, para o Instituto
Pasteur
Por
Folha