Uma substância extraída do
aipo pode ser a base para o desenvolvimento de novos medicamentos contra a
leishmaniose cutânea. Em laboratório, a molécula apigenina demonstrou ação
contra o parasito Leishmania amazonensis – uma das espécies causadoras da
doença – e conseguiu reduzir as lesões e a carga parasitária durante estudo com
animais. Além de ser administrada por via oral, o que facilitaria seu uso em
pacientes, a substância não apresentou efeitos tóxicos. Coordenador do estudo,
Elmo Almeida-Amaral, pesquisador do Laboratório de Bioquímica de
Tripanossomatídeos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), afirma que muitos
testes ainda são necessários para que a apigenina se torne, de fato, um novo
medicamento. Porém, os experimentos indicam que ela é uma substância promissora,
que deve ser investigada como candidata para o desenvolvimento de novas
terapias contra a leishmaniose cutânea.
“Os resultados no modelo
animal foram superiores aos do antimonial pentavalente, que é o medicamento de
primeira escolha para o tratamento da infecção atualmente. A apigenina foi mais
eficaz tanto na redução da lesão, quanto na diminuição da carga parasitária”,
diz o cientista acrescentando que, após a identificação de uma molécula
promissora, leva-se cerca de dez anos para elaborar um novo remédio. O estudo
foi publicado na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases.
Classificada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) como doença negligenciada, a leishmaniose é endêmicas em
98 países. De acordo com a entidade, cerca de 1,2 milhão de novos casos da
forma cutânea da doença ocorrem anualmente. No Brasil, o Ministério da Saúde
contabilizou 21 mil novos casos por ano, nos últimos cinco anos, o que coloca o
país entre as dez nações com mais registros no mundo. Elmo ressalta que a
criação de novas terapias é fundamental para aumentar a qualidade de vida dos
pacientes. “Os medicamentos antimoniais pentavalentes começaram a ser
utilizados na década de 1940 e são a melhor opção até hoje. Os pacientes
precisam ficar internados por até um mês para receber a medicação por via
venosa ou intramuscular e podem sofrer efeitos colaterais consideráveis,
incluindo danos ao coração e aos rins. Desenvolver remédios orais, com menos
efeitos adversos, traria um grande benefício para essas pessoas e também reduziria
custos para o sistema de saúde”, avalia ele.
Efeito seletivo
Na pesquisa, o efeito da
apigenina contra a leishmaniose cutânea foi verificado em duas etapas. A
primeira foi a avaliação da atividade da molécula em culturas de células
infectadas por L. amazonensis. A maior dose utilizada reduziu em 71% a
proliferação dos parasitos, sem afetar as células hospedeiras. Esta
característica de seletividade é justamente um dos resultados mais destacados:
a substância atua 18 vezes mais sobre os parasitos do que sobre as células
hospedeiras. Investigando o mecanismo de ação da substância, os pesquisadores
verificaram que a apigenina parece não agir diretamente sobre os parasitos. O
efeito da molécula está ligado à ativação de vias oxidativas nas células hospedeiras,
o que leva à destruição dos patógenos. As propriedades químicas da apigenina
também foram analisadas a partir de uma ferramenta digital que reúne
informações de estudos científicos já publicados. Os dados apontaram alta
probabilidade de boa absorção por via oral e baixo risco de toxicidade.
Considerando os achados, os
cientistas decidiram prosseguir com o estudo em modelo animal. Os testes feitos
com camundongos mostraram que a apigenina, administrada por via oral, pode ser
mais eficaz no tratamento da leishmaniose cutânea do que o antimonial
pentavalente, administrado por injeção. Além de medir o tamanho das lesões na
pele dos animais após o início do tratamento, os cientistas avaliaram a
quantidade de parasitos presente nas feridas. Na maior dose utilizada, a
apigenina apresentou resultados superiores para redução das lesões e da carga
parasitária. Ao mesmo tempo, não foram detectados sinais de danos ao fígado ou
aos rins dos animais.
Segundo Elmo, os testes feitos
com diferentes doses de apigenina reforçam o potencial da substância. “Tanto
nos experimentos em cultura de células como nos testes com o modelo animal,
verificamos um efeito dose-dependente. Isto é, quanto maior a dose
administrada, maior o efeito observado. Essa relação é importante para comprovar
que os resultados percebidos – como a redução das lesões e da carga de
parasitos – são causados pela molécula e não por outros fatores”, comenta o
pesquisador.
Encontrada em diversos frutos
e vegetais – como limão e salsa, além do aipo –, a apigenina faz parte do grupo
dos flavonóides, substâncias produzidas pelo metabolismo de plantas que são
cada vez mais estudadas pelo potencial terapêutico. De acordo com Elmo, estudos
com diferentes compostos desse grupo já revelaram ação anti-inflamatória, antioxidante,
antiparasitária e anticancerígena. No Laboratório de Bioquímica de
Tripanossomatídeos, o primeiro trabalho sobre o efeito leishmanicida de uma
molécula flavonóide foi publicado em 2011. Desde então, diferentes substâncias
foram investigadas, sendo que a apigenina é a segunda a chegar até a fase de
estudos em modelo animal e aquela que apresentou melhores resultados.
Sobre a leishmaniose cutânea
Os parasitos do gênero
Leishmania são transmitidos para os pacientes pela picada de diversas espécies
de pequenos insetos chamados de flebotomíneos e popularmente conhecidos como
mosquitos-palha. Estes vetores são infectados ao sugar o sangue de animais que
atuam como reservatórios dos parasitos, o que inclui diversas espécies de
roedores, marsupiais, edentados e canídeos silvestres. Diferentemente do que
ocorre na leishmaniose visceral, não existe comprovação de que os cães
domésticos tenham participação fundamental no ciclo da leishmaniose cutânea.
Geralmente, a doença é transmitida em florestas, regiões rurais ou áreas
periurbanas, nas quais habitações são construídas próximo de matas.
A infecção cutânea se
manifesta por meio de lesões na pele, geralmente em formato de úlceras. Mesmo
sem tratamento, estas feridas tendem a evoluir para a cura em um prazo que
poder durar desde alguns meses até poucos anos. A doença não é transmitida
diretamente de uma pessoa para a outra e não há risco de contágio pelo contato
com as lesões. O tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de
Saúde (SUS). As medidas de prevenção incluem o uso de repelentes e mosquiteiros
nas áreas com transmissão da doença. A limpeza de quintais e terrenos também é
recomendada para combater os criadouros do vetor, assim como o descarte
adequado do lixo orgânico com o objetivo de reduzir a aproximação de animais
que podem ser reservatórios do parasito.
Por: Maíra Menezes (IOC\Fiocruz)

0 comentários:
Postar um comentário