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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O que há no projeto que muda a maneira de lidarmos com agrotóxicos no Brasil

Proposta altera aprovação de produtos e até a maneira como essas substâncias serão chamadas oficialmente.

 MÁQUINA APLICA AGROTÓXICOS EM LAVOURA. PRODUTO PODE SE CHAMAR ‘DEFENSIVO FITOSSANITÁRIO'

Em março de 2016, Bela Gil pediu a seus seguidores do Facebook que votassem em uma consulta pública via internet sobre o banimento do agrotóxico carbofurano. A apresentadora conseguiu o que queria: 70% pediram a proibição. O resultado será usado como termômetro pela Agência de Vigilância Sanitária, que ainda analisa a questão. Mas, de qualquer forma, a mobilização foi simbólica.

Agora, uma outra personalidade do mundo da culinária, a cozinheira e ex-jurada do reality show “Master Chef”, da Band, Paola Carosella, está convocando seu público para participar da discussão sobre mudanças na legislação que regula o uso de agrotóxicos no Brasil, em vigor desde 1989.

Atualmente, as diversas propostas sobre o tema estão sendo discutidas por uma comissão especial da Câmara dos Deputados, que deverá elaborar um documento final para ser enviado por votação do plenário. Depois, a matéria vai para o Senado.

Um dos projetos mais impactantes é o PL 3.200 de 2015, que prevê, entre outras coisas, a retirada de poder do Ministério do Meio Ambiente sobre a questão dos produtos químicos usados nas lavouras.

Criticado por ambientalistas e defendido por membros da bancada ruralista, o projeto é do deputado Covatti Filho (PP-RS), e tem o potencial de “modificar algumas coisinhas que não são menores”, afirma Paola em um vídeopublicado em sua conta do Facebook na sexta-feira (12).

No vídeo, que viralizou na internet, ela convida seus seguidores a participarem de uma audiência na faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo nos dias 29 e 30 de agosto.

O evento é organizado pela Defensoria Pública de São Paulo, com apoio do movimento Muda-SP, que promove a agricultura urbana e a agroecologia, e da Campanha Permanente Contra Agrotóxicos e Pela Vida, entre outras entidades.

Entenda três pontos da legislação que podem mudar, caso as alterações em discussão no Congresso sejam aprovadas.

Nem agrotóxicos, nem pesticidas: ‘defensivos fitossanitários’

A legislação de 1989 traz o termo “agrotóxicos” para se referir a “produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos” usados com o objetivo de “alterar a composição da fauna ou da flora”.
Ou seja, matar vegetais ou outros seres vivos, como insetos, para promover o crescimento da cultura desejada.

Empresas produtoras de agrotóxicos preferem o termo mais brando “defensivos agrícolas”. O projeto usa, no entanto, “defensivos fitossanitários”.

Em entrevista concedida em junho de 2016 ao Nexo, Rafael Cruz, que coordena a Campanha de Agricultura do Greenpeace avalia que essa mudança serviria apenas para desviar atenção do fato de que esses produtos são tóxicos.

Aprovação de agrotóxicos se concentraria no Ministério da Agricultura

Segundo a lei de 1989, a aprovação de um novo agrotóxico precisa passar pela avaliação de Ministério da Agricultura, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ligado ao Ministério do Meio Ambiente, e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), vinculada ao Ministério da Saúde. Mas, segundo o autor do PL 3.200, Covatti Filho, essa estrutura não dá conta de regular o setor.

“Fabricantes informam das dificuldades de instalação de novas fábricas ou de obtenção de registros de seus produtos; produtores rurais reclamam da ausência ou da demora na disponibilização de novos produtos que controlem doenças e pragas; consumidores clamam por alimentos mais seguros; médicos alertam para aspectos da saúde humana e toxicológicos; ambientalistas apontam para a necessidade de desenvolvimento de processos mais sustentáveis”

Covatti Filho
Deputado federal, em entrevista concedida em abril de 2016 à Agência Câmara

Pelo novo projeto, uma outra instituição seria criada, a CTNFito (Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários). Ela concentraria  a aprovação de novos agrotóxicos no Brasil. E todos os seus 23 membros seriam designados pelo ministro da Agricultura.

Ou seja, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Saúde deixariam de influenciar na decisão.

Quem é crítico a essa proposta afirma que ela concentraria poder em excesso nas mãos do Ministério da Agricultura, que tende a sofrer mais influência do agronegócio.

Um paralelo que pode ser feito é o caso dos Estados Unidos, onde a legislação fez o caminho contrário ao proposto pelo PL 3.200.

Lá, a aprovação de agrotóxicos era concentrada nas mãos do USDA (Departamento de Agricultura) até a década de 1970. Depois disso, no entanto,  passou para as mãos da EPA (Agência de Proteção Ambiental).

Segundo o artigo acadêmico “A regulação de agrotóxicos, uma análise comparativa”, publicado em 2013 na revista “Science and Public Policy”, essa mudança foi importante porque colocou a aprovação de agrotóxicos como atribuição de uma entidade que não está diretamente ligada ao agronegócio. E que por isso tenderia a oferecer pareceres mais isentos sobre o assunto.

Prazo de aprovação dos agrotóxicos

Atualmente, a aprovação de um agrotóxico é um processo longo, o que o torna alvo de críticas do setor de agrotóxicos e de produtores agrícolas. Agrotóxicos defasados tornam as lavouras brasileiras mais vulneráveis a pragas resistentes.

Publicado em 2015 na “Revista Brasileira de Inovação”, o estudo “A (des)coordenação de políticas par a indústria de agrotóxicos no Brasil” afirma que entre janeiro de 2010 e junho de 2014, o tempo médio, a partir da data do protocolo até a conclusão da análise dos agrotóxicos, passou de dois anos e um mês para três anos e oito meses, um aumento de mais de 80%. A fila era em 2014 de 1.486 processos aguardando pareceres.

O projeto de lei 3.200 de 2015 pretende encurtar esse período, estabelecendo diversos casos - como a ausência de um produto capaz de lidar com a praga em questão, por exemplo - em que esses prazos seriam encurtados para entre 30 a 180 dias.

Em entrevista ao Nexo, Victor Pelaez, engenheiro de alimentos e economista que preside o Observatório do Uso de Agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná, ressalta, no entanto, que essa alteração não resolve o problema essencial que gera o atraso: a falta de técnicos capacitados para acompanhar os pedidos.

Segundo o artigo acadêmico “A regulação de agrotóxicos, uma análise comparativa”, nos Estados Unidos uma equipe de 850 pessoas se dedicava a acompanhar o processo de aprovação de novos agrotóxicos em 2013. No Brasil, a Anvisa contava com cerca de 46.

André Cabette Fábio
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FOTO: CHAFER MACHINERY/CREATIVE COMMONS




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