Pesquisadores
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) observaram que a
melatonina, hormônio cuja principal função em humanos é regular o sono, atua
na formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese) das células foliculares do
ovário, relacionadas ao desenvolvimento do óvulo. A descoberta pode ajudar no
tratamento de mulheres com infertilidade.
Hormônio
que regula o sono atua na formação de novos vasos sanguíneos em células do
ovário, dizem pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (Imagem: Wikimedia
Commons)
Além
de regular várias funções celulares, a melatonina é responsável por carrear
informações sobre a duração do fotoperíodo diário, transmitindo dados sobre as
variações de luz que ocorrem durante os dias e as noites ao longo do ano e
permitindo ao organismo responder com mudanças adaptativas às alterações do
ambiente. A suspeita de que o hormônio estaria relacionado à maturação do
folículo ovariano surgiu do fato de que há três vezes mais melatonina no
líquido que o envolve do que na circulação sanguínea. Além disso, as células
foliculares possuem receptores de melatonina.
“O
processo de angiogênese é essencial para o aumento das junções do tipo Gap
entre as células – canais de partículas cilíndricas que fazem com que as células
entrem em contato umas com as outras para que funcionem de modo coordenado e
harmônico. Isso permite a chegada de nutrientes e de fatores de crescimento às
estruturas foliculares e, ainda, a liberação da produção de esteroides sexuais
pelas células foliculares. Assim, a angiogênese folicular é importante para a
qualidade do folículo e do ovócito. Descobrimos que a participação da
melatonina nesse processo modula o crescimento do folículo ovariano, a unidade
básica do sistema reprodutor feminino”, explica José Maria Soares Junior,
professor associado da disciplina de Ginecologia e vice-chefe do Departamento
de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP.
A
pesquisa Efeito da melatonina sobre a angiogênese das células da granulosa em
mulheres com infertilidade submetidas a programa de fertilização in vitro,
coordenada por ele e realizada com o apoio da FAPESP, avaliou as vias de ação
do hormônio no processo e concluiu que a melatonina em altas concentrações pode
ter dupla função: além de facilitar a formação de novos vasos sanguíneos, ela
aumenta a expressão de fatores de crescimento e citocinas, proteínas que
modulam a função de outras células ou da própria célula que as gerou.
De
acordo com Soares Junior, já havia relatos na literatura científica de que a
melatonina pode ajudar no amadurecimento do oócito, a célula feminina que está
prestes a se converter num óvulo maduro, interferindo na função ovariana. Em
seu doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o pesquisador
trabalhou na caracterização dos receptores de melatonina nos ovários de ratas e
sua interação com o estrogênio, hormônio com ação no controle da ovulação.
Durante
a pesquisa na FMUSP, foi observado que determinadas concentrações de melatonina
nas células foliculares de mulheres submetidas a estimulação controlaram o
metabolismo do estrogênio e de outras substâncias relacionadas ao VGS, um fator
de crescimento associado à proliferação de células e importante para o
amadurecimento do folículo e do oócito.
Para
chegar aos resultados, os pesquisadores estabeleceram, entre fevereiro de 2014
e março do ano passado, culturas de células foliculares, cujas camadas são
chamadas de granulosa, que foram tratadas com melatonina em laboratório. Foram
incluídas na pesquisa 20 pacientes com idade entre 20 e 35 anos, atendidas no
Setor de Reprodução Humana. As células da granulosa que seriam descartadas
durante o processo de fertilização foram removidas e encaminhadas para o
cultivo celular, divididas em quatro grupos, sendo três deles tratados com
diferentes concentrações de melatonina e um sem tratamento.
De
março de 2015 ao último mês de abril, células da granulosa obtidas de outras 68
pacientes da mesma faixa etária foram submetidas a uma nova rodada de estudos.
A ação da melatonina foi verificada em todas as células submetidas a tratamento
nas duas rodadas, com o aumento da angiogênese variando de 30% a 80%, a
depender das concentrações do hormônio. Além de comprovar sua ação, os
pesquisadores chegaram a concentrações ideais para tratamento.
“Os
resultados indicam que a melatonina tem uma participação importante na
regulação do crescimento folicular, com consequências numa melhor qualidade
oocitária, e sugerem uma possibilidade de tratamento de mulheres com
infertilidade relacionada a baixas concentrações do hormônio ou a problemas nos
receptores nas células da granulosa”, diz Soares Junior.
Ainda
de acordo com o pesquisador, são necessários novos estudos para que se saiba se
o aumento da concentração de melatonina no fluido folicular pode resultar em
embriões de melhor qualidade.
Os
resultados da pesquisa e de avaliações de outros efeitos da melatonina estão no
artigo Melatonin influence in ovary transplantation: systematic review,
publicado pelo periódico Journal of Ovarian Research e disponível em ovarianresearch.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13048-016-0245-8.
Além de Soares Junior, assinam o artigo Marcos Shiroma, aluno de pós-graduação
do programa de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP; Luciana Lamarão Damous,
pós-doutoranda do Laboratório de Ginecologia Estrutural e Molecular (LIM) do
Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP; Edmund Chada Baracat,
professor titular da disciplina; e Nara Macedo Botelho, pós-doutoranda da
disciplina e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do
Pará (UFPA).
Os
estudos têm ainda a colaboração de Carla Cristina Maganhin, que realiza a
pesquisa Análise de melatonina em mulheres com infertilidade submetidas a um
programa de fertilização in vitro: estudo funcional nas células da granulosa,
também com apoio da FAPESP, e de José Cipolla Neto, professor titular do
Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas
(ICB) da USP.
Diego
Freire | Agência FAPESP


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