O
médico João Martins Pisco e um doente sueco que operou esta semana
Procedimento
para doença da próstata custa €4450 e é feito no privado há oito anos. Doentes
vêm de todo o mundo
Mais
de mil doentes, a maioria estrangeiros, foram operados à próstata em Portugal
com uma técnica que os urologistas garantem não estar testada cientificamente.
O médico responsável pelo procedimento opera num hospital privado no centro de
Lisboa desde 2009 e está a ser alvo de processos pela Ordem dos Médicos
(OM).
Gustavsson
tem 66 anos, é sueco e esta quinta-feira submeteu-se à contestada cirurgia. Com
uma hiperplasia benigna da próstata, um tumor não maligno, teria de esperar
três meses para ter acesso a tratamento na Suécia. Um clínico brasileiro amigo
sugeriu-lhe o médico em Lisboa e o economista veio.
“Fui
à unidade local de saúde, onde todos trataram bem de mim”, conta. O problema
exigia, no entanto, a intervenção de um urologista e uma cirurgia. E foi
reencaminhado para o hospital. “Fui tratado — entretanto desenvolvera uma
infeção — e informado que teria de ser operado, fazer uma prostatectomia
clássica”, explica. Além das sequelas possíveis, incontinência e impotência
como as mais frequentes, a intervenção não poderia ser para breve. “Teria de
esperar três meses e decidi procurar outra solução.” Se nada fizesse,
continuaria algaliado por mais 90 dias. A viagem até Lisboa foi muito mais
rápida.
Ir a
outro país para ser operado não o assustou. “Tinha de ser, porque na Suécia há
muitos problemas no sistema de Saúde. Os médicos de família estão sempre a
mudar, nunca temos o mesmo clínico, e na Urgência é preciso esperar oito a dez
horas.”
Gustavsson
foi operado na quinta-feira na unidade hospitalar privada no centro da capital
onde está a ser utilizada a técnica sob suspeita da OM. “Foi com anestesia
local, demorou 20 minutos, não tive dores e sinto-me perfeito, apenas um pouco
cansado”, contou ontem de manhã. “É um tratamento fabuloso e que devia ser
divulgado.” Teve alta ainda ontem e passou por Lisboa antes de regressar a
casa.
A
contestada intervenção foi criada pelo médico João Martins Pisco para tratar
casos de aumento benigno da próstata. “O meu irmão morreu em 2007, com 64 anos,
depois de ter sido operado no Pulido Valente, onde eu trabalhava. Ficou
incontinente após a operação, teve de tomar medicação para aumentar o tónus (para
a uretra contrair mais e reter a urina na bexiga) e acabou por ter um enfarte.
Decidi inventar uma nova técnica, que utilizo desde 2009”, explica o médico,
radiologista de intervenção.
O
procedimento (ver caixa), de embolização das artérias prostáticas, “é muito
simples”, garante.
“Com
a operação comum há anestesia geral, a barriga é aberta para reduzir a próstata
e a uretra é alargada e com a minha técnica só é precisa anestesia local e um
cateter para introduzir partículas que vão entupir as artérias da próstata,
levando à sua diminuição e fazendo o doente melhorar”, descreve. Os urologistas
criticam, afirmando que a intervenção não foi submetida ao escrutínio
científico.
DOIS
PROCESSOS ARQUIVADOS
O
médico já foi alvo de dois processos pela OM, um deles chegou a tribunal, e
está sob inquérito para eventual processo disciplinar. Além da prática clínica
está também em causa a deontologia e a ética da sua atuação. “Qualquer técnica
tem que ser validada e objeto de estudo, o que não aconteceu até agora”, afirma
o presidente da Associação Portuguesa de Urologia, Arnaldo Figueiredo.
O
especialista explica que o Colégio de Urologia da OM já emitiu um parecer
técnico sobre a ausência de evidência científica da técnica de Martins Pisco e
“está a ser concluído um parecer ético”. Fonte da OM adiantou ao Expresso que
“sob suspeita está o facto de a intervenção ser apresentada como já tendo sido
testada, sem informar os doentes que estão a ser alvo de uma experiência”.
O
radiologista garante que os doentes sabem ao que vêm. “Digo sempre que é um
processo experimental do qual tenho bons resultados, porque não há complicações
graves como na prostatectomia (90% com impotência e mais de 50% com
incontinência) e que em 10% a 15% dos casos não há melhoras, mas também ninguém
fica pior.” João Martins Pisco revela que “os dois processos da OM foram
arquivados” e justifica as críticas como “a animosidade de quem percebe que a
técnica é boa”.
O
procedimento custa perto de 4500 euros e já foi realizado em 1161 doentes de
mais de 80 nacionalidades e formados dezenas de médicos estrangeiros, que vêm a
Lisboa aprender com o médico português. “Os urologistas portugueses são os
únicos a nível mundial que não aceitam a técnica. Sou reconhecido em todo o
mundo, exceto em Portugal.”
VERA
LÚCIA ARREIGOSO, TIAGO MIRANDA


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