Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou, na quarta e na quinta-feira (1º e 2/7), o segundo Fórum Global de Pesquisa e Inovação em Covid-19, com a participação de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O Fórum, que acontece de maneira virtual, teve como objetivo atualizar o que já se sabe sobre a nova doença e quais são as lacunas de conhecimento, onde a pesquisa deve investir. Com isso, busca-se acelerar o desenvolvimento do conhecimento sobre o tema.
A
abertura do evento foi feita pela cientista chefe da OMS, Soumya Swaminathan,
que agradeceu aos grupos de trabalho e as instituições que têm participado do
esforço em todas as regiões. Ela voltou a reforçar a importância da
colaboração internacional e a disposição da OMS em continuar apoiando esse
esforço como uma estratégia fundamental para o enfrentamento da pandemia.
Cientistas
estão trabalhando em conjunto, compartilhando métodos e dados, e se reunindo,
há mais de quatro meses, em nove grupos sobre: transmissão; interação
humano-animal e ambiental do vírus; estudos epidemiológicos; caracterização e
manejo clínico; prevenção e controle; vacinas; terapêuticas; ética para
pesquisa; e ciências sociais. Representando a Fiocruz, os pesquisadores Thiago
Moreno (CDTS/Fiocruz), Paula Reges (INI/Fiocruz) e Gustavo Matta (Ensp/Fiocruz)
acompanharam as discussões dos grupos de terapêuticas, de caracterização e
manejo clínico e de contribuições das ciências sociais, respectivamente.
Com
mais de mil e duzentos participantes, entre membros da OMS e cientistas, a
reunião avaliou os progressos feitos até hoje. Entre eles, destacam-se os
esforços para busca de uma vacina. Segundo a OMS, dos mais de 146 estudos de
vacinas em andamento, 17 candidatas estão em fase avançada, sendo a
desenvolvida pela Universidade de Oxford a única que já está em fase 3 dos
estudos clínicos. Esta é a vacina que a Fiocruz vai passar a produzir a partir
de acordo anunciado no dia 27/6. Para os presentes, no
entanto, é importante que as pesquisas não sejam abandonadas após o sucesso de
uma das candidatas.
Para
o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, grande parte das esperanças no momento
estão baseadas no trabalho científico, de onde se esperam respostas para
melhorar as intervenções e incorporar novas alternativas que farão mais efetivo
o controle da pandemia. Adhanom reforçou a importância da reunião e agradeceu a
todos pelos progressos feitos desde a reunião em fevereiro, quando foi
realizado o primeiro fórum sobre Covid-19, em Genebra, com a presença da
presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima.
“Temos
acompanhado, desde a detecção da nova doença, as descobertas e discussões da
comunidade científica internacional sobre a Covid-19, buscando contribuir e dar
as melhores respostas à grave crise humanitária que nos afeta. Eventos como
esse nos permitem ver o quanto avançamos até aqui e traçar estratégias
conjuntas em defesa da vida, de aceleração das respostas em diagnóstico,
medicamentos e vacinas, e do fortalecimento dos sistemas de saúde”, afirmou a
presidente da Fiocruz.
O
grupo também revisou os dados mais recentes do estudo de Solidariedade da OMS,
que no Brasil é liderado pela Fiocruz, e de outros estudos concluídos e em
andamento para possíveis terapêuticas: hidroxicloroquina, lopinavir/ritonavir,
remdesivir e dexametasona. Eles concordaram com a necessidade de mais ensaios
para testar antivirais, drogas imunomoduladoras e agentes antitrombóticos, bem
como terapias combinadas, em diferentes estágios da doença.
No
final do evento, um plano global de pesquisa para os próximos meses foi
traçado, com a identificação das questões emergentes de pesquisa, das
principais lacunas científicas e de novas prioridades. Como orientação geral,
os cientistas levantaram a necessidade de aumentar a articulação entre os
grupos de trabalho, a ênfase nos países de baixa e media renda, o acesso
equitativo a possíveis medicamentos e vacinas, e a aplicação dos resultados em
comunidades vulneráveis, além de expandir a rede com a participação de outras
organizações que já apoiam o mapa de pesquisa e desenvolvimento da OMS.
Entre
os caminhos que a pesquisa deve seguir, foram destacadas a continuidade dos
estudos clínicos de vacinas e terapêuticas, assim como estudos sobre a
intensidade e duração da resposta imune, a origem do vírus e as formas de
disseminação. Os cientistas também concordaram em avançar em pesquisas sobre
métodos diagnósticos sorológicos e diagnósticos portáteis, e a integração das
pesquisas dessa área com as pesquisas clínicas, sobre vacinas e de
epidemiologia. Além disso, foi destacada a importância de desenvolver
estratégias para melhorar a preparação para novas ondas e compreender eventos
que podem potencializar o transmissão para reduzir seus riscos e também
monitorar o papel dos animais na transmissão, uma vez que se trata de uma
zoonose.
No
campo das ciências sociais foram consideradas prioritárias as pesquisas sobre
adesão comunitária ao uso de vacinas, o papel da comunidade na mitigação da
pandemia, o papel dos agentes de saúde formais e informais e os determinantes
sociais a serem considerados na reconstrução do período pós-pandemia. Também se
discutiu a atenção às populacoes nas áreas de conflito, populações vivendo em
situação de crise humanitária e epidemias múltiplas. A saúde mental também
ganhou destaque como uma importante área de pesquisa.
Diretor executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Mike Ryan somou-se à grande preocupação em conhecer melhor os fenômenos sociais para entender a dinâmica das intervenções sociais, as quais, nesse momento, são uma forma importante de intervenção e que seguirão sendo no futuro, como já aprendido a partir de outras epidemias, como a do ebola.
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